Chutes, bolas dribles e lágrimas: a antropologia do futebol no olhar antropológico de Nélson Rodrigues.
O texto de Arlei Sander Damo, “Futebol e estética” será orientado pelo olhar antropológico, a partir do qual procurará chamará atenção para algumas idéias de Gumbrecht, um famoso crítico literário alemão, porém sob um ponto de vista distinto. Damo objetivando compreender a razão da popularidade do futebol entre nós, irá reiterar ser demasiado importante a questão da estética. O estético, no entanto, não se refere a uma essência fixa e definida pelos verdadeiros torcedores, para Damo, a “rematada estética” deve ser percebida a partir da análise de três categorias que lhe são emprestadas da antropologia social: a noção de ritual disjuntivo, de pertencimento clubístico e jogo absorvente. Tomando como base o texto de Arlei Sander Damo, tentaremos averiguar como a estética do jogo bretão aparece em alguns textos do “antropólogo” Nelson Rodrigues.
O maior “antropólogo” brasileiro, Nelson Rodrigues, também observou a importância estética do futebol (enquanto um “jogo profundo”) e dos jogos disjuntivos em geral. Como Geertz, Nelson Rodrigues foi mestre em demonstrar como o futebol consegue dramatizar as tensões e paixões sociais da sociedade brasileira. “Pergunto: por que o futebol é tão amado? A meu ver o que nós procuramos nos clássicos e nas peladas é a poesia. A coisa pode soar falsa, mas insisto. E não só no futebol. Se vamos a um jogo de peteca, de bola de gude ou cuspe a distância é ainda na crença de sua possibilidade poética.” (Rodrigues e Filho, ???, s/d) A estética aqui aparece a um só tempo como presente essencialmente no conflito, no embate. O poético reside precisamente no senso “disjuntivo” que se configura tanto na literatura quanto no jogo profundo. É precisamente o sentido do inesperado, do embate que torna o futebol um “ritual disjuntivo”, capaz de mobilizar milhões no anseio de mudar o imutável. “A imprevisibilidade é um elemento centrais do espetáculo esportivo”, diz Damo. Nelson defende que o estético do futebol reside principalmente nesse sentido de alternância imprevisível que apenas os espetáculos esportivos são capazes de proporcionar à multidão.
Uma outra chave de compreensão da estética do futebol apontada por Damo é a idéia de “pertencimento clubístico”, que carrega consigo um caráter, de certa forma, mágico e sacralizado. Damo relembra Louis Dumont, via da Matta, quando afirma ser a escolha clubística momento fundamental na passagem de indivíduo à pessoa. Este “o transporte do indivíduo acima de si mesmo”, na famosa frase de Durkheim sobre a religião, ocorre a partir do momento em que se assume um clube de “coração”. Este momento épico da escolha será sempre lembrado como um momento fundamental na vida de qualquer pessoa. Fica gravado, com raras exceções, o momento em que se assume como “pertencendo a algum clube” Nelson Rodrigues qualificou tal momento de escolha do time de coração como anterior à escolha do próprio sexo, o que se faz mais verdade ainda nos dias de hoje quando ser homem ou mulher, é, afinal de contas, uma opção. Se Zygmunt Bauman ao analisar a passagem de uma modernidade sólida a uma “Modernidade Líquida” afirmou ser a transitoriedade entre as identidades uma das características fundamentais do atual estágio da sociedade, talvez, não tenha prestado à devida atenção ao fenômeno clubístico (2000, 193-230) O torcedor, diferente daquele que é religioso, não pode torcer por times distintos. É uma heresia total “ser Flamengo” para depois “ser Vasco”. A “modernidade líquida”, que tem como característica principal, a fluidez, o movimento, parece não ter atingido o torcedor, que não transita de um clube ao outra. Aliás, parafraseando Nelson Rodrigues, todo torcedor é torcedor desde vidas passadas. Ser torcedor significa crer em determinados valores comungados por uma comunidade maior, a do clube do futebol. Nesse sentido, ir a um estádio de futebol, defender o seu clube em um espaço de sociabildade como uma mesa de bar, significa em outras palavras expor as suas crenças, compartilhá-las publicamente. Há aqui uma analogia bastante interessante que se aproxima da proposta realizada por Émile Durkheim, em “As formas elementares...”, quando afirmou categoricamente que a religião, ao contrário da filosofia e das artes, são necessariamente coletivas. Diz: “as crenças só são ativas quando são compartilhadas” (pg. 502, 1989). Torcer, para um clube, nesse sentido, pode ajudar na construção de um senso de coletividade.
Clifford Geertz associou à estética do sentido da briga de galo na sociedade balinesa ao sentido estético que possui a literatura (ou a pintura) nas sociedades ocidentais. Para Geertz, a chave de entendimento da briga de galos, como uma espécie de jogo que dramatização (exibição) dos valores da sociedade de Bali, está na tentativa de apreensão social do significativo deste “jogo absorvente” (profundo) na própria lógica balinesa. De acordo com o olhar da hermenêutica geertziana, a uma profunda estética na briga de galos por esta ser capaz, tal qual a literatura, de “exibi-las [as paixões sociais, as tensões sociais] em meio à penas, ao sangue, às multidões e ao dinheiro” (Geertz, 1978, pg. 311). Quão “profunda” seja uma briga de galos, mais ela exibirá a beleza, a estética da sociedade balinesa, da mesma forma como Guérnica, Rei Lear ou Crime e Castigo, quadros e textos extremamente “profundos” (absorventes) e belos. Além disso, também para Nelson a dimensão estética do futebol reside não apenas na beleza de uma jogada plástica, mas no sentido e no significado que os torcedores atribuem ao jogo. Na supracitada epígrafe, a grã-fina de narinas de cadáver que não sabe quem é a bola (não compartilha dos códigos mais elementares do jogo), percebe, apesar do preconceito, o sentido mágico que emana de um jogo absorvente como o Fla-Flu. Também foi capaz de perceber a riqueza pela qual o futebol exprime os valores contidos em determinadas categorias presentes em dada sociedade tal qual literatura. “Os nossos debates e conclusões são um dado fundamental para sociólogos, historiadores, e políticos. Direi mesmo que se a mesa “Facit” existisse no tempo de Euclides da Cunha, este a teria preferido a Canudos. Repito- a nossa resenha ensina mais sobre o país do que Os Sertões no princípio do século.” Obviamente, a resenha semanal de Nelson, bem como o conjunto de sua obra, continuam nos ajudando a perceber muitos dilemas da sociedade brasileira, como a questão racial, os costumes conservadores, os valores, etc. Nesse sentido, como destacou Adriana Facina, para uma compreensão mais exata da obra de Nelson Rodrigues é preciso se esquivar de juízos de valores que o qualificam como o “gênio romancista” e “homem reacionário”. Uma visão antropológica que consiga escapar das tentações de qualificá-lo como um “santo ou um canalha” parece ser a melhor saída. O olhar antropológico da estética deve ser o mesmo na análise do futebol, pois só assim o compreenderemos não como revolucionário, ou conservador, mas como capaz de exprimir os valores de dada sociedade em meio “a chutes, bolas, dribles e lágrimas”...
Bauman, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2000.
Damo, Arlei Sander. Futebol e estética. Revista Perspectivas, s/d.
Durkheim, Émile. As formas elementares da vida religiosa. Rio de Janeiro, Martins Fontes, 1989.
Geertz, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1978.
Facina, Adriana. Santos e canalhas uma análise antropológica da obra de Nelson Rodrigues. 1. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.
Fontes:
Rodrigues, Nelson & Filho, Mário. Fla-Flu: E as multidões despertaram. Rio de
Janeiro, s/d, s/ed.
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