Sinais da Civilização: a popularização do esporte no Brasil e na Inglaterra
No Brasil, é praticamente impossível encontrar um brasileiro que não seja capaz de se emocionar diante de um jogo da Seleção Brasileira em época de Copa do Mundo. Segundo Bourdieu, o futebol é retratado como uma esfera dissociada da realidade social, como um mundo à parte. A auto-representação da sociedade sobre si mesma dissocia a esfera do mundo do trabalho da esfera do lazer esportivo. De acordo com esta visão, no mundo do lazer, portanto, os conflitos presentes no mundo do trabalho se dissolveriam no ar. Em determinado momento tal percepção, aliada à presença maciça de negros e mulatos de sucesso no esporte torna o futebol um espaço perfeito para que umas gamas de intelectuais começassem a retratar o esporte como expressão-mor da nacionalidade “mestiça” brasileira. Constrói-se assim uma memória do esporte livre de tensões, que pretende suprimir os conflitos de raça em virtude da idéia de democracia racial, tão cara ao projeto freyreano. Tal idéia desenvolvida por intelectuais, reflete-se na produção de uma auto-imagem que retrata o brasileiro como possuidor de um talento inato para o jogo com os pés que decorreria sem dúvida “harmoniosa mistura racial que teria feito dos habitantes do país craques em potencial”[1].
Pode-se afirmar, porém, com algumas ressalvas, que a história de popularização do futebol no Brasil e na Inglaterra é própria dramatização dos conflitos entre grupos estabelecidos e grupos outsiders (marginais).[2] Na Inglaterra, a história da popularização do futebol é indissociável do processo de urbanização e de um processo que os historiadores sociais qualificaram como “o fazer-se da classe operária”. O surgimento do esporte moderno está evidentemente ligado à formação da sociedade moderna: uma sociedade regrada, que mede o tempo (“o séc. XIX inventou o minuto”, no dizer do historiador Alain Corbin), que representa os seres humanos como átomos sociais, destituídos de coletividade. Na Inglaterra, o mob-football (folk-football) existe ao menos desde o século XIV, ou pelo menos é combatido desde o século XIV. É notável, porém, o fato de que apenas no século XIX o jogo tenha sido sistematicamente minado, de um lado, pela repressão mais enfática; de outro pela crescente urbanização que acabava, naturalmente, impedindo a prática do jogo. Nesse sentido, será trazido para dentro das escolas mais renomadas de toda a Inglaterra (como Eton, Winchester, etc.), as chamadas public schools, e codificado para que seja, enfim, praticado pelos membros da alta aristocracia inglesa. Antes, um “indício de barbárie”, se sistematizado, e codificado, o jogo torna-se quase de imediato um “sinal de civilização”. Liév Tolstoi observa com argúcia que a grande questão do jogo não é a pura prática. O jogo desregrado não contribui de modo algum para o desenvolvimento do espírito capitalista de uma nação. Nesse sentido, é precisamente a definição da regra que faz com que o futebol ganhe um novo impulso. As elites inglesas concordam o com a visão de Tolstoi de que efetivamente o futebol pode ser usado de forma a disciplinar a classe operária; e, se antes, viam no como um mal a ser combatido, passam a incentivá-lo sistematicamente. Do lado da classe operária, há uma identificação clara e maciça com o antecessor do futebol, o mobfootball, que como observou Russel, acabou por servir de “raw material” (matéria bruta-prima) para o desenvolvimento do jogo como conhecemos hoje. Além disso, a reconstrução de rivalidades antigas e a produção de novas farão com que rapidamente a classe operária se apaixone pelo jogo. A aquisição do sábado, a redução da jornada de trabalho e uma melhoria da qualidade de vida da população operária inglesa[3] permitiram a rápida ascensão do futebol como o maior esporte de massas da Inglaterra. Em locais em que a classe operária se desenvolvia havia mais tempo para a prática do futebol e para a organização de equipes. A geografia do futebol se assemelhava quase que totalmente às zonas de industrialização inglesa: no Norte Industrial contra o Sul Aristocrático, aquele ganhava cada vez mais força graças à ascensão do profissionalismo. “Na balança de poder futebolística, pelo menos dentro de campo, parecia a balança de poder estar caminhando em direção às mãos da classe operária.”, diz Dave Russel. No Brasil, também, ao menos dentro de campo, a aristocracia do futebol perderia o poder.
No Brasil, o futebol desembarca como um esporte de elite, praticado por jovens da elite carioca que havia saído para estudar Europa afora. No início do século passado, a República e a Abolição haviam sido recém decretadas. A aristocracia carioca encontrava-se de sobremaneira abalada com a força dos acontecimentos; sem dúvida, o signo de distinção que outrora lhe era assegurada pela lei monárquica, que hierarquizava os indivíduos, havia sido suplantada pela idéia de República, que ao menos no plano formal, coloca todos os indivíduos sobre idêntico status da cidadania[4]. Nesse sentido, a aristocracia destituída de capital simbólico encontra, através do esporte, um meio vigoroso de restabelecer a dominação social. Cria-se, portanto, uma espécie de identidade sportman, que estabelece uma separação clara entre nós (brancos, homens, jovens, praticantes de esporte com os corpos definidos, membros da elite, conhecedores e praticantes da regra) e eles (as mulheres, a ralé, os negros, os pobres, que não conhecem a disciplina e a regra social). O futebol desembarca no Brasil como um signo da distinção, como efetivamente “um sinal da civilização”. Por um outro lado, muito em sintonia com o desenvolvimento do jogo que atraía cada vez mais espectadores, intelectuais, como Coelho Netto, enxergariam no futebol a possibilidade de redenção do povo e da raça brasileira, mestiça, o futebol seria capaz de disciplinar as classes populares Com o passar dos anos, entretanto, verifica-se um interesse cada vez maior da população local por aquele jogo “estrangeiro”. Pode-se especular, se quer compreender o desenvolvimento do esporte, que o futebol despertava nos grupos marginais o desejo de galgar tal capital simbólico, o que acabou implicando numa rápida difusão do futebol por toda a cidade. Ademais, o futebol permitia, dentro de campo, completas condições de igualdade e na medida em que cada vez mais os times representavam grupos (Vasco, os portugueses, o Flamengo, os negros, o Fluminense, elite) aumentava a identificação clara dos outsiders com o jogo difundindo ainda mais o esporte. Os negros, em especial, pareciam perceber no jogo um sentido profundo (Geertz, 1978) e sem dúvida vislumbravam no esporte a possibilidade de derrotar, ao menos simbolicamente, a elite aristocrática; bem como, ao jogarem em clubes da fábrica, uma melhoria real em termos de qualidade vida. A popularidade do Bangu, um clube associado à classe operária, por exemplo, é imediata. Havia, além disso, um grande medo de se jogar no campo do Bangu; quando os clubes aristocratas (Flamengo, Fluiminense) iam jogam por lá a derrota do Bangu significava, segundo Mário Filho, confusão. A “violência”, obviamente na visão de Mário Filho, da torcida de um clube como o Bangu nos faz lembrar times ingleses como o West Ham e o Millwall, de tradição operária, cujas torcidas são marcadamente viris. Nesse sentido, percebe-se que cada vez mais é muito menos um jogo de bola que está em jogo. São os conflitos sociais que se dramatizam diante duma platéia ensandecida. Para alem de um sentido dado por intelectuais ou por sportmans, o futebol parecia ganhar novos sentidos com o ingresso da classe mestiça, sobretudo para aqueles que o praticavam.
Há, evidentemente, pontos de contato e de distensão entre o desenvolvimento do futebol no Brasil e na Inglaterra. No Brasil, o problema racial atravessa como uma espécie de fio branco a história do desenvolvimento do nosso futebol. Clubes como o Grêmio apenas aceitaram negros em suas agremiações na década de 50! Conforme destacou Leite Lopes, “a popularização do futebol no Brasil está relacionada à apropriação deste esporte pelas diferentes classes e grupos sociais e isso não se dá independente da cor e da etnicidade” A exclusão deste grupo outsider se faz evidentemente marcante até pelo menos a Copa de 1958, quando finalmente o sucesso do selecionado brasileiro na Suécia fez transmutar o tal do complexo de vira-latas em valorização do cão puro-sangue e mestiço. O problema agora, conforme coloca Nélson Rodrigues se torna o seguinte dilema: “ser ou não ser Garrincha?” O futebol é apresentado nas crônicas de Nélson como aquele capaz de efetuar a redenção definitiva do povo brasileiro, símbolo de todas as nossas virtudes positivas. Entretanto, para se chegar a uma perspectiva de valorização dentro de campo da figura mestiça, foi percorrido um longo caminho de lutas que envolveu vários e vários Garrinchas que lutaram bravamente pela afirmação de que deveriam de fato possuir na sociedade brasileira, um lugar ao Sol. Tal processo de afirmação do negro e da invenção de um jogo mestiço é, sem dúvida, uma luta dos negros por um espaço na sociedade. Afirmar isso não significa negar o racismo na sociedade brasileira, ao contrário, retratá-lo para que ele seja um dia expurgado definitivamente do nosso país. Por seu turno, este problema permanece, com raras exceções, (como no caso dos Hooligans do Millwall que atiraram bananas no campo na década de 1960) ausente dos gramados ingleses pelo fato evidente de serem reduzidos os negros que habitam a Inglaterra. O futebol na Inglaterra sempre esteve ligado ao desenvolvimento da classe operária. As conquistas da classe operária são indissociáveis do desenvolvimento do futebol inglês, como se viu, entretanto, se isso é verdade, as perdas da classe operária também afetam diretamente o futebol inglês. Em tempos de neoliberalismo, a classe operária parece estar cada vez mais longe de seus clubes do coração, e times outrora tradicionais, como o Millwall amargam a terceira divisão. A Premier League que celebra o neoliberalismo em sua face mais amarga transforma os jogos em espetáculos para grupos de classe média alta, muda radicalmente os horários dos jogos, excluindo radicalmente um grupo que apoiou secularmente suas equipes em nome do dinheiro, dos melhores dos jogadores e da celebração dessa nova fase do capitalismo global.
Bibliografia
Bourdieu, Pierre. Como podemos ser esportivos? In: Questões de sociologia. Rio de Janeiro, 1980.
Geertz, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1978.
Gomes, Ângela de Castro. Venturas e desventuras de uma República de cidadãos. In: Martha Abreu (org.) Ensino de história: Conceitos, temas, metodologias. Rio de Janeiro, s/d
Leite Lopes, José Sérgio. Classe, cor e etnicidade na formação do futebol brasileiro. In: Culturas de Classe. Antonio Luigi Negro e Alexandre Fortes (Orgs.) Campinas, Editora da UNICAMP, 2004.
Hobsbawm, Eric. Mundos do Trabalho. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1989.
Pereira, Leonardo Affonso Miranda. Footbalmania: uma história social do futebol. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999.
Rodrigues, Nelson. A pátria de chuteiras. São Paulo, Cia. Das Letras, 1994.
Tolstoi, Liev. Ana Karenina. Rio de Janeiro, Abril Cultural, 1999.
[1] Pereira, Idem, pg. 14.
[2] José Sérgio Leite Lopes, op.cit, A palavra outsider, a meu ver, torna-se capaz de englobar grupos marginalizados não apenas pelo capital econômico, mas também pelo status social que possuem em diferentes temporalidades. Basta ver, como na Inglaterra, a proibição ao jogo feminino foi constante, enquanto no Brasil, a perseguição ao estigma da raça negra é flagrante até os dias atuais.
[3] Sobre os fatores que possibilitaram a melhoria da classe operária inglesa, a partir de 1870, ver Hobsbawm, pg. 281.
[4] Chama atenção para isso Ângela de Castro Gomes, em “Venturas e Desventuras de uma República de cidadãos”. In: Martha Abreu & Rachel Sohiet, Ensino de História.
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