quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Flamengo: a black squad?

"Flamengo, Flamengo, tua glória é lutar. Quando o Mengo perde, eu não quero almoçar, eu não quero jantar!" Amigos, o samba de Wilson Baptista se apropria devidamente de um verso do Hino Rubro-Negro (o oficial!) que exprime muito bem aquilo que entendo por Flamengo: a luta. O Flamengo, já se disse, não é técnica, é luta. Não que o Flamengo seja o Grêmio do Rio de Janeiro, longe disso. O Grêmio irrita! Irrita porque é um típico time brasileiro, mas que se acha argentino, alemão, ou qualquer coisa que o valha. O Flamengo é um típico time brasileiro, mas que se acha brasileiro. Mais do que brasileiro (ou talvez, por isso, mais brasileiro): Flamengo é um time negro. Não, amigos, o Flamengo não é o time dos negros. No Flamengo, há espaço para os brancos, por exemplo, o Flamengo nunca me renegou, o Flamengo nunca renegou ao Zico. A questão é mais ampla: o Flamengo é um time negro. Ele simboliza uma parcela marginal da população brasileira, daí é tão amado. No dia 20 de novembro, dia de Zumbi dos Palmares, dia da Consciência Negra, nada melhor do que pensar no Flamengo. O Flamengo deve ser patrimônio imaterial do Brasil, dos negros. Por que o futebol ainda não alcançou tal estatuto? Por que só o Jongo? Por que só o Acarajé? Acho que as elites do Brasil ainda tem a sensação de que o futebol é delas. Que o futebol simboliza a cultura brasileira, aquela que desconhece a luta de classes e a diferença social. Não à toa, em 2014, teremos uma Copa no Brasil e não do Brasil. Balela. Há muito tempo o futebol é do povo, o futebol é dos negros.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Um dia para o Flamengo.

Dia de jogo. Dia de Maracanã. Amigos, me sentia em débito com o Flamengo há algum tempo. Por muitas razões, tenho ido razoavelmente pouco ao Maracanã. Cheguei de Piraí, vulgo fim-do-mundo, exaurido. Não podia, porém, deixar de ver: Flamengo X Palmeiras. Honestamente, antes do match, esperava muito pouco do Flamengo: bom sinal. Quando acho que o Mengão ganhará fácil, é derrota na certa, o contrário também é verdadeiro. Chegando lá, a fila extendia-se quase até a bilheteria seis. A fila era enorme. Não havia problema: queria pagar a minha dívida, e ficaria o tempo necessário naquela fila. Alguns absurdos me deixaram irritado. Era claro, nítido como água que não se encontra por aí que a fila existia apenas por causa da quantidade absurda de cambistas. Os irritantes conchavos entre cambistas e bilheteiros são irritantemente irritantes. E irritam, devo dizer, o mais apaixonado dos torcedores. A torcida Jovem, ao olhar atento da polícia, furou claramente a fila. Muitos, a meu ver, nem eram membros de grande capital simbólico da jovem, apenas usavam a camisa da torcida organizada para, digamos assim, intimidar o "povão". Havia, inclusive, um sujeito obeso e gordo. Irritantemente, obeso e chato. O sujeito furou a fila e teve o prazer de "rir" na cara dos verdadeiros torcedores. Este sujeito não devia ser Flamengo, acho, aliás, que nem é. É apenas um sujeito irritante como tantos que existem.
Felizmente, existem males que vem para o bem. Nick Hornby escreveu certa vez que quanto mais é o sofrimento que o torcedor se submete pelo clube, maior é a sua felicidade no gozo da vitória. É verdade. O maravilhoso 5 a 2 apenas refletiu a superioridade do poderoso Flamengo. Mas isso não foi tudo, um show de Ibson, que marcou três gols. Uma partida histórica, até porque, o irritante Luxemburgo, não tomava cinco gols desde 1997, quando perdeu para o Palmeiras, treinando o Santos, por 5 x 0. Óbvio que o Luxa saiu do jogo irritado assim como muitos cambistas saíram do jogo mal-humorados, pois pude perceber uma boa e significativa recusa de muitos torcedores, que preferiram horas na fila a comprar com os cambistas. Isso é, de certa forma, reconfortante. É preciso de alguma forma combater essa desorganização-organizada. A desorganização existe organizadamente. Ela é pensada, trabalha, ela não é gratuita. A coisa mais fácil que existe no mundo é uma fila séria em um estádio de futebol. Bilheterias funcionando corretamente, filas rápidas, não são difíceis. Atrairiam é verdade muitos mais torcedores ao estádio, o que compensaria o ônus. Nem todos os torcedores são masoquistas e gostam de sofrer pelo time. Muitos gostam de rapidez, conforto, agilidade. Talvez exista uma palavra ainda melhor: respeito. Sim, meus amigos, os torcedores gostam de respeito. Pelo menos, no domingo, o time do Flamengo soube nos respeitar.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Quando o Flamengo não é o Flamengo.

Amigos,


De vez em quando, me pego pensando em Vavá, Zizinho, Pirillo, Dida, García, Doval, Reyes, Rondinelli, Gamarra, Zico, Adílio, Andrade, Nunes... Um dos paradoxos da pós-modernidade é a saudade de um tempo em que não se viveu. Com o futebol brasileiro dilacerado, não há como amar o presente, é preciso se remeter ao passado. O sociólogo Bauman diz que quando as incertezas do futuro estão nítidas, o passado aparece como salvaguarda.

Voltando ao Flamengo. Ultimamente, o Flamengo não tem sido o FLAMENGO. Aquele time cuja camisa é capaz de jogar sozinha, aquele time cujos jogadores tem vontade de se matar após uma derrota. O Flamengo não tem sido senão uma paródia de Flamengo. Nosso técnico "pós-moderno", verdadeiro entendedor das cousas do futebol, não acerta o time, e o time não se acerta. Quando da saida de Joel, nosso Rei, minha namorada foi capaz de exprimir muito bem minha opinião sobre o comandante da nau rubro-negra: "Ele não tem cara de técnico. Ele não sabe nada de futebol". Óbvio, sem preconceitos, Caio Jr. tinha que estar na faculdade de História, ou fazendo algum tipo de filme best-seller na Inglaterra, mas não deveria estar no Flamengo jamais. O Flamengo não tem cara de bruxo infanto-juvenil, embora muitas vezes consiga vencer seus jogos utilizando-se da magia da torcida. O Caio Jr. não tem a cara do Flamengo.

Vimos, pois, que o técnico do Flamengo não tem a cara do "verdadeiro" Flamengo. Mas o que é, afinal, o verdadeiro Flamengo? Amigos, o Flamengo é raça, disposição e vontade. Nada mais. A massa amava ao Zico, mas também amava ao Rondinelli. Deles, nada exigia senão o total entregar-se. Zico era querido não porque fosse bom de bola, mas porque "era" Flamengo. Não havia diferença entre a cor de pele de seus braços e pernas nus a camisa que vestia. Mesmo quando jogava com uma blusa amarela (o terceiro uniforme), transparecia por aquele pedaço-de-seda a pele rubro-negra. A verdade é que Zico não ficava bem de amarelo. Não combinava, afinal, com seu majestoso tom-de-pele. Os jogadores pós-modernos de nosso time, como Kléberson ou Josiel não tem jeitão de Flamengo. Um parenteses: amigos meus, Thiago Gondim e Pipo Senos, observaram que toda a vez que se fala do substantivo Kléberson, o adjetivo "pentacampeão" do mundo o acompanha. Do tipo: "ah, o Kléberson nada joga no Flamengo, mas ele é pentacampeão do mundo, temos que respeitá-lo". Não respeito estes títulos menores. Fosse Kléberson campeão brasileiro pelo verdadeiro rubro-negro, respeita-lo-ia deveras. Acontece que acabou conquistando um título pelo rubro-negro do Paraguai, ou, se preferirem, o da Baixada. Amigos, o Flamengo merece mais do que tem obtido. A torcida do Flamengo merece mais. Já fui a vários jogos do Fluminense (na Young Flu), do Botafogo (nas cadeiras!) e do Santos (na Torcida Jovem), fui mesmo até a alguns jogos de Internacional (Beira-Rio), Atlético-PR (Baixada), Corinthias (São Paulo), Vila-Velhense (Vila-Velha), América-RJ (Maracanã e Giuliete Coutinho) e nenhuma torcida me emociona tanto como a do Flamengo. Deixando de lado o amor e o moderado fanatismo, a torcida do Flamengo é a mais bonita do mundo. Infelizmente, ainda não fui a jogo algum do glorioso Oxford United, torcida que, imagino, possa rivalizar com a do Mengão, mas um querido amigo andou frequentando o Kassan Stadium e me comprovou não haver comparação. As torcidas do Oxford e do Flamegno tem amargado diversas derrotas. Isto não faz parte do Flamengo, isto não é o Flamengo que desejamos. Desejamos um Flamengo com raça, luta e fibra. A técnica é necessária, mas não é fundamental. Apenas queremos ver sangue dentro de campo. No mínimo, muito mas muito suor. E isto, meus amigos, não tenho visto.